sábado, 2 de abril de 2011

O PORTÃO DO SEU RAFAEL

Você poderá ler na integra o caso de ensino. Ele está publicado no livro Casos para Ensino em Administração  (2º Capítulo) - Valéria Araújo e Patrícia Webber são as organizadoras. Editora: CRC
  Poderia tratar-se de um portão qualquer, mas aquele em especial “pertencia” ao Seu Rafael. A rua, Segundo Wanderley, não era nem ao menos mencionada, o portão tornara-se o local de referência e encontro das pessoas que entravam e saiam. E com zelo, o portão era fechado e aberto dia após dia, ano após ano. O Seu Rafael parecia que tinha sido congelado no tempo, com seu boné, seus cabelos brancos e aquele sorriso contagiante e cativante a todos que por ele passavam, ali ele era feliz. Ainda posso lembrar da sua voz “ô Dudu, corre que seu Xavier já chegou e tá com pressa, menino...” ”Zezinho chama o Pedrinho que tá jogando bola, que a mãe dele já chegou...” “Bom dia professora, tá bonita!” E assim, com seu jeitinho ele ia conquistando todo mundo.  No aniversário de 75 anos do Colégio das Neves, ele foi homenageado como o funcionário mais antigo, 36 anos de dedicação, e como ele ficou orgulhoso recebendo a sua placa de agradecimento pelos serviços prestados àquela instituição.
Mas o tempo é implacável, ele não pára. Muitas vezes, é na expressão das nossas faces que ele vai mostrando que é chegada a hora de desacelerar. Os passos já não acompanham o ritmo do nosso coração, o olhar já não possui aquele brilho, no entanto, a cada momento ele repousa, contemplativamente, na linha do horizonte e como numa volta ao tempo a gente se dá conta de que é chegada a hora de se aposentar. Com o Seu Rafael não foi diferente, se não fosse um pequeno detalhe, ele não queria ir embora, ele não queria parar. O Colégio das Neves há muito tinha deixado de ser apenas o seu trabalho, ele passou a ser a sua vida. As experiências vividas foram sendo sedimentadas e reconstruídas simbolicamente na sua identidade profissional com aquela instituição.  Nos últimos anos, as Irmãs acharam mais prudente colocar um outro porteiro que o “auxiliasse” na sua tarefa, pois o portão, já meio esquecido, precisava de alguém mais atento; os reflexos já lhe traiam e denunciavam a chegada do fim. E agora como falar para o Seu Rafael que ele não podia mais ficar ali, no seu portão. 

                                                                                                                        Sílvia Freitas