terça-feira, 17 de setembro de 2013

Minha poesia


Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. 
Escrevo alegria. A poesia é sempre o reverso
das coisas. Não se trata de mentira. É que
somos seres dilacerados. O corpo é o lugar
onde moram as coisas amadas que nos
foram tomadas, presença de ausências, daí
a saudade, que é quando o corpo não está onde está.

                                                                  Rubem Alves




domingo, 15 de setembro de 2013

Ausência

Em vão surpreendo-me com seus olhos sobre mim
eles já não me dizem nada
e nada mais me faz sentir
Mas sei que você está aqui
em algum lugar da minha memória
Não quero lembrar
Aliás, o que teria para lembrar?
Senão o eco vazio dos seus passos...

                                                                                    Sílvia Freitas




sábado, 14 de setembro de 2013

Meu viver

É difícil
mas eu queria o seu amor só pra mim
não aprendi a dividir
só sei somar
e do meu jeito exagerado
multiplicar muitas e muitas vezes
este amor sem fim
Você parece não entender
não percebe que eu sou assim
e me deixa de lado
nem um beijo roubado é tentado
Vou cantando este meu sonhar
em ter você só pra mim
quem sabe um dia um poeta verdadeiro
se encante com este entristecer
e toque uma viola
para este meu sofrer...


                                                                  Sílvia Freitas

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Minha solidão

Por que tu  insistes em chegar se  nunca consegues ficar
O teu vir já é vestido de adeus
E o azul das tuas mãos nem sempre preenche o vazio das minhas

Entenda
 a minha solidão é só minha
 - solidões não se somam, apenas permanecem lado a lado - 

Se não pode ser amor 
Não carregarei comigo a tristeza de amar sozinha.

                                                                                                         Sílvia Freitas







sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O meu olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos".


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Querer-te


Ah estes teus olhos que me enchem de esperança... 
Este querer de longe e de tão perto não poder
Querer-te entre o sim e o talvez
Desejar este sonhar na solidão dos meus versos
E de tanto amar-te em sombras esquecidas
Carregar comigo o gosto amargo do vazio dos teus braços.

                                             Sílvia Freitas